20 de março de 2017

JAMES ENSOR




- Tais Luso de Carvalho

James Ensor, pintor e gravador belga nasceu em Ostende em 1860. Foi um dos artistas mais originais de sua época e uma das influências formativas do Expressionismo – movimento que implica a transformação ou distorção artística da aparência das coisas, a fim de explorá-las como veículo para um conteúdo emotivo.

Seus quadros bizarros, povoados de pessoas mascaradas e coloridos, retratavam um mundo burlesco e alienado. As máscaras e os personagens fundem-se numa dúvida: eram as máscaras que se transformavam em rostos ou os rostos humanos que se transformavam em máscaras? E com isso, repetia o mesmo tema: da existência humana, da morte, e de temas religiosos. Mostrava um certo desassossego, um desespero. Sua pintura, que retratava um mundo com muito humor e ironia aproximava-se de Bosch e Bruegel.

Entre 1873 - 75, Ensor frequentou o liceu Notre Dame de Ostende. Teve aulas de desenho com dois artistas: Edouard Dubar e Michel Van Cuyck.

Com suas obras fantásticas e também macabras exerceu uma influência considerável sobre a futura arte expressionista e surrealista. Mas sua obra, no entanto, desafia qualquer classificação.

O mundo das máscaras originou-se da loja de seus pais, sendo um dos primeiros artistas a apreciar as máscaras africanas. Utilizava cores ardentes para representar cortejos fantasmagóricos, multidões sem características individuais, percorrendo paisagens indefinidas como se fossem sonâmbulos.

Suas obras foram rejeitadas pelo Salão de Bruxelas de 1883. Com isso, Ensor juntou-se ao grupo progressista Les Vingt – um grupo de vinte pintores e escultores que expuseram juntos de 1884 a 1893. Entraram obras não só dos pintores belgas como Ensor, Jan Toorop, Henry van de Velde, mas também de Cezanne, Van Gogh e Seurat. Esse grupo teve papel importante, na Bélgica, nos movimentos Simbolista e na Art Noveau.

A obra mais expressiva de Ensor talvez tenha sido Entrada de Cristo em Bruxelas-1888. Provocou tantas críticas entre seus companheiros do grupo que não havia mais condições de permanecer entre eles. Após esse episódio, o pintor tornou-se recluso, e passou a ter aversão à convivência com as pessoas.

Em 1893, Ensor fez sua última exposição com o grupo, mas sentindo-se cada vez mais isolado, põe o seu estúdio á venda por 8500 francosmas nenhum comprador se mostrou  interessado.

Em 1900, voltou a repetir seus temas favoritos. Em 1929 foi condecorado pelo rei Alberto I, o título de barão, e sua obra polêmica A Entrada de Cristo em Bruxelas, foi exposta pela primeira vez ao público.
Faleceu em 1949. 

         The bourgeois solon - 1881                        The Oyster eater - 1882
Cozinheiros Perigosos
Os Telhados de Ostende - 1901
Máscaras assistindo uma tartaruga - 1894
O esqueleto do pintor em seu estúdio


Livro:
de Ulrike Becks-Malorny

12 de fevereiro de 2017

MURILLO – O PINTOR BARROCO

Murillo / Bodas em Caná -1672


         - Tais Luso

Bartolomé Esteban Murillo nasceu em Sevilha, no dia 1º de janeiro de 1618 e morreu aos 64 anos, em 1682. Seu pai chamava-se Gaspar Esteban, era barbeiro. A sua mãe chamava-se Maria Pérez Murillo. Murillo era o filho número catorze. No início Murillo foi influenciado pelo seu mestre, suposto tio, Del Castillo.
Murillo talvez seja o pintor que melhor define o barroco espanhol. Após conquistar reputação com uma série de 11 pinturas sobre a vida dos santos franciscanos, feitas para o mosteiro franciscano de Sevilha, suas pinturas estão dispersas pela Espanha e outros países. Em muitos museus, também.
A maior parte de suas pinturas são cenas religiosas que apelam fortemente à piedade popular e ilustram as doutrinas da Contra-Reforma Católica, especialmente o dogma da Imaculada Conceição, seu tema favorito. Seu estilo maduro distingue-se claramente de suas primeiras obras, caracterizando-se por figuras idealizadas, formas suaves, colorido delicado e doçura de ânimo e expressão.
Ao contrário da pintura grandiloquente, rica, opulenta de Goya ou Velazquez, ele criou uma obra de cenas contidas, domésticas, pobres, infantis. Talvez por ter vivido a decadência do outrora rico Império Espanhol, que mergulhava no obscurantismo religioso.
Foi nos conventos que adquiriu um estilo caseiro, intimista, plácido, onde os eventos clássicos são situações contidas, e os Santos como quaisquer pessoas. De certa forma, democratizando a arte sacra até então conhecida.
Acabando com as cenas lancinantes de martírios, de lágrimas de granizo, de arrebatamentos místicos, de langores religiosos. Os quadros de Murillo são humanos, mas de uma luminosidade moderna. Foi arrasado pela crítica por ter embelezado a pobreza de seus modelos.
Em 1660 fundou uma Academia em Sevilha com ajuda de Valdés leal e Francisco Herrera.
Na época era o único pintor espanhol conhecido fora do país. Teve muitos assistentes e seguidores e continuou influenciando pintores até o século XIX, o qual muitos críticos o incluíram entre os maiores de todos os tempos.
Murillo casou-se em 1645 com uma jovem de Sevilha, de 22 anos, Beatriz Cabrera y Villalobos, na famosa Igreja da Madalena. Durante os dezoito anos de matrimônio tiveram nove filhos, porém morrendo quatro, da peste que assolou Sevilha em 1649.
Morreu simplesmente, fazendo uma ligação indissolúvel entre a grande arte e o mundo real dos homens. Sua morte foi devido a uma queda enquanto pintava sobre os andaimes, O Casamento de Santa Catarina, para os capuchinhos de Cádiz.
Hoje é admirado pelo realismo temático, pela leveza e fluidez das cores, sem pretensões. Suas obras estão no Museu do Prado/Madri, Museu de Belas Artes/Sevilha, Hermitage, Nacional Gallery/Londres, Museu de Ohio, Museu Nacional de Arte antiga/Lisboa, Museu do Louvre, entre outros, e muitas galerias dos Estados Unidos e da Europa. Ainda hoje, Murillo encontra-se como um dos artistas mais reconhecidos.

Murillo / Retorno do Filho Pródigo - 1667 (por volta)
Murillo / Juniper e o Mendigo - 1645 (por volta)
     Meninos, melão e uvas - 1645                                    Toilette                                                        

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Referências:
Grandes Pintores/P.R.Derengoski
Dicionário Oxford de Artes/ Martins Fontes São Paulo 2007




30 de janeiro de 2017

ART NOUVEAU


 
Alphonse Mucha - Riverie 1897
       
          - Tais luso


O termo ‘Art Nouveau’ designa um estilo na arquitetura e artes aplicadas que floresceu na Europa entre a última década do século XIX e os primeiros anos do século XX. O movimento recebeu diferentes denominações em diversos países:
Arte Nova, Portuga, Art Nouveau, na França; Modern Style, na Inglaterra; Jungendstil, na Alemanha; Sezession, na Áustria; Stilo Floreale, Inglese ou Liberty, na Itália; Modernismo, na Espanha, além de outras denominações curiosas.
Art Nouveau originou-se do nome adotado pelo decorador e colecionador Samuel Bing para sua loja em Paris, inaugurada em 1898. Lá havia trabalhos dos artistas Tiffany, Henry van de Velde difundindo as novas idéias entre decoradores.
A repetição acadêmica de modelos desgastados levou os artistas a buscarem o novo, a romperem com os chamados estilos históricos como o neo-renascentismo, neogrego, neocelta, neobarroco, nei-rococó, hindu, etc., proclamando sua intenção de ser a arte do presente, a arte moderna.
Essa arte representou uma ruptura com as tradições naturalistas do século XIX; procurou unir a arte à técnica moderna e à produção industrial; e na arquitetura adotou novos materiais de construção visando unir a beleza e a funcionalidade.
Suas primeiras manifestações datam de 1880, atingindo o apogeu em 1900 - quando obteve consagração internacional. Após, entrou em declínio embora perdurasse até a Primeira Guerra Mundial.
O elemento feminino sempre esteve presente: era a mulher sensual, melancólica ou demoníaca, com forte carga erótica (vitrais de E.Grasset).
Outra das características desta arte foi a acentuada presença do artesanato ao lado das máquinas numa tentativa de integrar os interiores arquitetônicos pesados, com excessiva decoração e acúmulo de objetos, tornando, aos poucos, um lugar mais amplo e de melhor aproveitamento de espaço.
Na Espanha Antonio Gaudi trouxe uma imensa contribuição, sua arquitetura assemelhava-se à escultura: desenhou ambientes, peças de mobiliário e detalhes para suas construções, impregnado-as, às vezes, de um caráter alucinatório que o tornou alvo de admiração dos surrealistas. Outros expoentes da arquitetura desta época foram E.Vallin, H.Grimard, Louis Sullivan entre tantos outros. Foi no campo das artes plásticas que o Arte Nouveau mais se expandiu. Os principais artistas foram Eugène Grasset, Jules Chéret, Pierre Bonnard, Toulouse-Lautrec, Teophille Steinlen, Felix Vallonton, A. Mucha, Edward Munch entre tantos outros na Inglaterra, Holanda, Estados Unidos, Alemanha, Escócia, Bélgica...
Na técnica de vidro cito Emíle Gallé, cuja produção ligava-se às formas da natureza. Grande variedade de vasos e abajures, com decoração esmaltada ou em camadas superpostas em relevo formando contornos de insetos, folhas e flores de longas hastes.
Nos Estados Unidos, Tiffany enriqueceu a arte da vidraçaria fabricando vasos de linhas delgadas, elegantes e coloridos. E René Lalique deixou sua marca única, conhecida mundialmente. M.Vrubel, Klimt, Visconti deixaram suas belas marcas em murais e mosaicos, enquanto Bugatti, Gaillard e outros deram suas contribuições aos móveis decorativos.
No início do século XX os preceitos e teorias do Art Nouveau já apareciam desgastados, suas formas mal copiadas. O Art Nouveau não repudiou a industrialização, mas não sobreviveu a ela: o técnico substituiu o artesão.


Abajur Tiffany

Cartazes ilustrativos

Rua Cândido Reis / Porto, Portugal



Antoni Gaudi: Casa Mila (La Pedrera)


16 de janeiro de 2017

A ARTE DOS CEMITÉRIOS


Cemitério Guayaquil / Equador

- Tais Luso de Carvalho 


Quando criança eu achava a arte cemiterial um pouco macabro, mas era coisa de criança. Lembro que minha entrada em cemitérios era um vapt-vupt: o tempo necessário para assistir ao sepultamento, e por obrigação! Não queria saber de olhar para nada. Mas como tudo muda no percurso de nossa vida, tudo amadurece, passei a olhar um cemitério com olhos de quem quer ver arte.

E descobri que cemitério é um lugar que pode ser belo, onde não há mais ninguém, onde não há mais respiração e nem ação; que existe apenas memória e saudades. Mas memória e arte andam juntas, silenciosas, em harmonia.

Pude entender por que no Dia dos Finados, as pessoas ficam passeando pelas ruas dos cemitérios mais conhecidos e mais belos! São nesses túmulos que a arte se mostra formosa, bela e viva.

Antigamente pessoas ilustres eram enterradas em igrejas. Pensavam que por estarem mais perto dos santos teriam garantido seu lugar ao lado do Senhor. Os cemitérios eram destinados aos desvalidos, aos enforcados e aos escravos. Essa concepção veio até 1858 quando médicos e sanitaristas da cidade de São Paulo se deram conta que a cidade estava doente, que precisavam eliminar os focos das infecções. E os ilustres enterrados nas igrejas, eram um dos focos das infecções. Então o sepultamento, o lugar físico, saiu das mãos da igreja para as mãos do Estado.

No cemitério da Consolação em São Paulo há obras magníficas, mostrando dor, sensualidade, uma estética linda e apurada de um artista como Amadeo Zani, Victor Brecheret, Francisco Leopoldo Silva, Enrico Bianchi, Julio Starace, Luigi Brizzolara, Materno Giribaldi e de Giorgio. 


Além de ver arte, descobrimos nosso passado, onde se encontram as memórias de gente ilustre como Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, a Marquesa de Santos, Washington Luiz, Monteiro Lobato, José Bonifácio de Andrada e Silva...e tantos outros notáveis.

Hoje, já se agenda visitas monitoradas para o conhecimento da arte nos cemitérios. Isso acontece nos cemitérios da Europa, como o Pére-Lachaise, do Rigoleto e Chacarita na Argentina, no Cemitério da Santa Casa de em Porto Alegre, Consolação, em São Paulo e em muitos outros espalhados pelo mundo afora, onde a arte não se intimida, pelo contrário, acolhe.

Como podemos atestar, nem após a morte há igualdade entre as pessoas: mausoléus de mármore, ricos adornos e belíssimas esculturas - ostentadas pelos familiares -, ainda mostram que igualdade social é uma utopia. Mas este é um assunto para o meu outro blog. Aqui, quero mostrar um pouco da arte que existe nos cemitérios e não dizer que a obra é de tal família, ou o que é de quem. Quero mostrar como é viva a arte que está entre os mortos. Deixo aqui algumas obras maravilhosas da arte cemiterial!



Cemitério Recoleta 

Cemitério Recoleta, Buenos Aires

Cemitério da Consolação / São Paulo


Cemitério Bonfim / Belo Horizonte



Cemitério Municipal de Curitiba - esc. Alberto Bazzoni
Túmulo de Chopin - Cemitério Pére-Lachaise em Paris


Cemitério Pére-Lachaise

Cemitério da Santa Casa / Porto Alegre, RS

Cemitério Consolação - SP /esc. Victor Brecheret



2 de janeiro de 2017

VÍDEOS DE ARTE SACRA -

Museu do Rio de Janeiro
(abaixo)



Museu de Arte Sacra de São Paulo - Ourivesaria
 (abaixo)


Esse vídeo mostra o rico acervo  do Museu de Arte Sacra de São Paulo, onde pretende que o espectador releia os simbolismos da vida cristã contidos em cada um desses objetos, os quais carregam em si atribuições sagradas e a verdadeira história de riquezas da São Paulo colonial.

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28 de dezembro de 2016

CÂNDIDO PORTINARI

Os Retirantes - 1944

Portinari nasceu em 1903 numa fazenda de café, em Santa Rosa, interior de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, era o segundo dos doze filhos do casal Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato. De família humilde, Cândido cursou apenas o primário. Porém desde criança mostrou sua inclinação às artes. Aos 9 anos desenhou o retrato de Carlos Gomes, como viu numa caixa de cigarros.

Em 1920, aluno da Escola Nacional de Belas Artes, aprendeu a técnica acadêmica, conservadora. Em 1928 ganhou como prêmio, uma viagem ao exterior ficando 2 anos na Europa convivendo com os renascentistas italianos.

De volta ao Brasil, em 1930, começou a desenvolver sua própria técnica, aplicada aos murais, obras por demais conhecidas: mural do Ministério de Educação e Saúde e os da sala da Fundação Hispânica na Biblioteca do Congresso em Washington, Via-Crúcis (Igreja da Pampulha, Belo Horizonte) e o painel Guerra e Paz para a sede da ONU.

Após sua volta, em sua primeira exposição mostra a versatilidade que será a característica de sua obra. Mostra influência direta de Modigliani. Em seguida deriva para os temas regionais e folclóricos. E, após, sente-se atraído pelos muralistas mexicanos, em particular por Diego Rivera. Ao mesmo tempo executa as duas primeiras obras abstratas em nosso país.
 
O lavrador de café
Com a obra O Lavrador de Café – onde conquistou o prêmio Carnegie, 1934, projeta internacionalmente seu nome tornando-se a figura de maior prestígio na pintura contemporânea brasileira.
Portinari retratou pessoas, em suas relações de amizade, nas cenas dos retirantes nordestinos e nos tipos populares, retratando sua história social 

Foi um pintor social, tocado de doloroso e revoltado humanitarismo em face da miséria, da fome e da ignorância. Seus numerosos retratos, aristocráticos e elegantes não contam na sua obra. Era o seu ganha-pão e, por outro lado, o preço inevitável de sua notoriedade. Finalmente, ninguém poderá lhe recusar o título vanguardeiro do primeiro e autêntico muralista da pintura brasileira.


O Mestiço / 1934
A figura do lavrador mestiço, com braços cruzados, lembra aquelas composições italianas. Aqui Portinari foi buscar referências em seus tempos de infância, quando trabalhava nos cafezais paulistas. 

As mãos e a cabeça agigantadas conferem eloquência à narrativa e monumentalidade para glorificar o trabalho das classes operárias. As tonalidades do marrom e o roxo dos campos cultivados expressam a vitalidade da terra. 

As pequeninas pedras à direita e o tronco à esquerda também lembram as lições de pintores italianos que usavam esses elementos para dar profundidade ao quadro. 

O fundo, com o muro do bananal à direita e a cerca do cafezal à esquerda, também recorda a perspectiva geométrica característica do Renascimento, confirmada pelo sólido formado pela casa, que se contrapõe, ao morro à esquerda. 

Algumas das pinturas conhecidas de Portinari: Meio Ambiente – Colhedores de Café – Mestiço – O Labrador de Café – O Sapateiro de Brodósqui – Menino com Pião – Lavadeiras – Grupos de Meninas Brincando – Menino com Carneiro – Cena Rural – A Primeira Missa no Brasil – São Francisco de Assis – Tiradentes – Os Retirantes – Futebol – O Sofrimento de Laio – Retirantes e Criança Morta. 

Em janeiro de 1962 sofreu nova intoxicação por chumbo, que já o atacara em 1954 e não mais se recuperou vindo a falecer em 6 de fevereiro, vítima de intoxicação pelas tintas que utilizava.

Colheita de Café

O estivador
O sapateiro de Brodowski / 1941

Meu primeiro trabalho / 1920



Cândido Portinari / Dias de tristeza aqui.



11 de dezembro de 2016

MICHELANGELO MERESI DA CARAVAGGIO


A cabeça de  Medusa / 1597  (Galeria Uffizi  - Florença)

- por Tais Luso 

Michelangelo Merisi da Caravaggio nasceu em 1571, Caravaggio, Itália. Não era propriamente genial como pessoa; era um jovem de temperamento violento, arruaceiro, mente instável, de muitas bebedeiras, dívidas, amigos duvidosos, várias prisões, uma acusação de assassinato no jogo da péla. Era um frequentador do submundo.

Caravaggio foi o mais original e influente pintor italiano do século XVII. Recrutava seus modelos nas ruas e os pintava à noite, entre luzes e sombras. Eram telas com fortes contrastes, jovens com caras viciadas, bêbados, gente de toda a espécie se entrelaçando em suas telas.

Caravaggio era filho de um arquiteto, que morreu ainda quando o pintor era criança. Sua mãe morreu quando ele era ainda jovem. No início de sua carreira, ao viajar para Roma, Veneza, Roma, Cremona e Milão Caravaggio já era um órfão individado.

Seus primeiros trabalhos foram marcados por retratos inigmáticos. Seu autoretrato como Baco (1593/1594), também exibe um extraordinário talento para natureza morta.


Ressurreição de Lázaro (restaurada)


Clique nas obras - tamanho maior
Pequeno Baco doente
Com muitos trabalhos em Roma, Caravaggio levou para as telas a vulgaridade humana, exibida nas suas figuras de vestes surradas e sujas e nos seus rostos maltratados.

Em seu quadro, A Morte da Virgem Maria pintou imagens sem gloria e sem o esperado explendor causando enorme desconforto e rejeição da igreja. Seria uma encomenda destinada a Igreja de Santa Maria de La Scalla. Cogitou-se que a modelo requisitada para a obra teria sido uma cortesã de vestido vermelho e que, pelo seu ventre inchado, já estaria morta.

Durante muito tempo foi considerado indigno para participar de exposições, igrejas e salões da nobreza. Era chamado pelos seus contemporâneos de anticristo da pintura, de artista pé sujo. Requisitava as prostitutas e mendigos para seus modelos de santos; os apóstolos em trajes velhos e sujos, ou ainda representar os momentos da história cristã como fato simples do cotidiano foram alguns dos pecados de Caravaggio. Assim mesmo sua obra foi tocada pela anormalidade do gênio, criativa e desesperada.

Caravaggio ainda trabalhou nas obras  O Sepultamento, A Virgem de Loreto, A Virgem dos Palafreneiros e A Morte da Virgem. As duas últimas recusadas, por incorreção teológica.

Ao romper com as representações sacras, deixa o caráter celestial, de personagens sagrados e volta a retratar o cotidiano mundano, com fundos escuros, valendo-se de sua técnica claro-escuro na qual foi mestre.

Duas fases se distinguem em sua carreira: um primeiro período experimental  1592 / 1599 e um período de maturidade (1599 / 1606). Suas primeiras obras foram pequenas figurações de temas não dramáticos, como naturezas-mortas, figuras de meio corpo como O rapaz com uma cesta de frutas, Florença, O jovem Baco. Mais tarde suas figuras tornaram-se mais articuladas, com cores mais ricas, com sombras acentuadas, como na Ceia de Emaús.

O segundo período, o da maturidade, Caravaggio iniciou com uma encomenda para a Capela de Contarelli. Na obra São Mateus e o Anjo, desenvolveu  uma ação dramática, com maestria no uso das tintas que com muito esforço foram conseguidas - vista num estudo através de raios-X. Porém, foi rejeitada por ser considerada indecorosa, mas comprada mais tarde pelo Marquês Vincenzo Giustiniani, um dos mais importantes mecenas de Roma, que também pagou pelo retábulo substituto.

No período em que fugiu de Roma - em 1606 -, passando os 4 últimos anos de sua vida perambulando de Nápoles para Malta e Sicília, continuou a pintar obras religiosas, mas com um novo estilo, buscando apenas o essencial: poucas cores, tinta aplicada em finas camadas e o drama das obras anteriores, substituídas por um silêncio contemplativo.

Sua atividade não foi longa, mas foi intensa. Caravaggio apareceu numa época em que o realismo não estava tão em moda, em que as figuras eram retratadas de acordo com as convenções e os costumes, mais romantismo e graciosidade do que as exigências da verdade, fazendo com que o belo perdesse seu valor.

O interesse por Caravaggio declinou no séc XVIII, mas voltou à baila na metade do séc XIX onde todos viam em sua pintura uma rejeição à beleza e a busca pelo horror, à feiura e ao pecado.

Teve uma morte prematura aos 39 anos e morreu tão miseravelmente quanto viveu, colocado numa cama, sem ajuda , sem amigos. Morreu de malária, em 1610, em Porto Ercóle, Itália.


CARAVAGGISTI

Era a denominação dada a pintores do início do séc XVII que imitaram o estilo de Caravaggio. O uso do claro e escuro para conseguirem mais dramaticidade e realismo. Estes exerceram muita influência em Roma no princípio do séc XVII. O Caravaggisti foi um fenômeno de grande importância, o mundo talvez não tivesse um Rembrandt, um Delacroix, um Manet, Rubens ou Velazquez se não fosse a influência de Caravaggio.

OBRAS PRIMAS:

Baco / Jovem com um Cesto de Frutas / Menino mordido por um Lagarto / Repouso na fuga para o Egito / A cabeça da Medusa / A Morte da Virgem / A Ceia de Emaús / O martírio de São Mateus / O Sepultamento / A Decapitação de São João Batista / A Ressurreição de Lázaro.

Ceia em Emaús        - clique foto -
Cesta de Frutas

Crucificação de São Pedro
O enterro de Cristo
A morte da Virgem
Baco / 1593 - 94


Os trapaceiros / 1594


São Francisco


Fontes:
Grandes Artistas - ed. Sextante
D.Oxford de Arte
501 Grandes Artistas

23 de novembro de 2016

SALVADOR DALI / A ÚLTIMA CEIA


A Última Ceia - 1955 / Salvador Dalí

Como outros quadros religiosos de Dalí, A Última Ceia provoca amplas reações: alguns críticos a denunciaram como fútil e banal, enquanto outros acreditam que Dalí conseguiu revitalizar a imagem tradicional da devoção.
As controvérsias se complicaram pela consciência pública de Dali como uma personalidade aparentemente mais interessada em jogos intelectuais e emocionais do que na expressão de convicções autênticas.
Jesus e seus doze apóstolos estão reunidos numa sala modernista envidraçada. Os apóstolos com as cabeças baixas, ajoelham em torno de uma grande mesa de pedra, suas formas sólidas contrastando com a transparência de Cristo.
Dois pedaços de pão e meio copo de vinho representam a refeição sacramental.
Dalí construiu esse quadro de acordo com os princípios matemáticos derivados do seu estudo do Renascimento, e Leonardo da Vinci (que pintou a mais famosa das Santas Ceias) é uma influência particularmente forte.
Com um gesto bem parecido com o de Leonardo, Jesus aponta para o céu e para a figura (talvez o Espírito Santo) cujos braços se estendem para abraçar o grupo.

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Ano: 1955
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 166,7 x 267 cm
Localização: National Art Gallery - Washington, EUA

In Vida e Obra de Dali / Nathaniel Harris ed.Ediouro 1997 RJ


2 de novembro de 2016

PINTURAS SACRAS II



           -Taís Luso


A singularidade do barroco brasileiro é ser uma mistura do barroco de vários países, nascendo daí características de um estilo próprio, marca de nossos artistas, retrato de nossa cultura. Os temas sacros predominam no nosso estilo barroco. E é conhecida a atração. A arte sacra dá um toque requintado à decoração de qualquer ambiente, além de representar a fé e a cultura de um povo. E como muitas pessoas têm me solicitado mais dessa arte,  deixo mais algumas técnicas. Deixo aqui  meu abraço a vocês. 
Então vamos lá...



SANTOS DA BAHIA

Impermeabilize com goma-laca purificada as peles e detalhes - 3 vezes deixando secar entre uma demão e outra. Pinte, as roupas, com as cores originais, misturando cera em 'pasta' à tinta a óleo de bisnaga, num potinho separado.
Deixe secar um pouco essa mistura e polvilhe com talco. Deixe secar mais um pouco e retire o excesso de talco.
Onde desejar folhas de ouro, passe o verniz mordente, deixe ficar em ponto de grude e cole a folha de ouro. Se quiser dê uma passada de palha de aço (bom-bril) nas saliências para desgastar, pois santos barrocos não têm aparência de novos.

PÁTINA ECLESIÁSTICA

Pinte a peça com uma tinta latex branca - 1 demão. Espere secar.
Aplique goma laca indiana em toda a peça - 1 demão. Espere secar.
Passe tinta a óleo para tela (bisnaga) diluída em secante de cobalto nas cores: carmim, verde, branco, azul. Em listras, na vestimenta do santo, a fim de que fique todo listrado. Espere secar. Pode adiantar com secador.
Após a peça bem seca, dê 2 demãos de goma laca purificada, esperando secagem entre uma demão e outra.
Passe verniz mordente nessas partes pintadas, esperando o ponto de grude (aplicação da folha de ouro). Espere secar totalmente. Cuide para não acumular o mordente nas reentrâncias.
Espiche bem o verniz.
Folheie, então toda a peça. Aplique talco nas mãos (para absorver o suor), e pegando folha por folha, vá batendo com um pincel macio, esticando bem a folha de ouro.
Tire o excesso da folha com pincel macio deixando aparecer as tintas coloridas embaixo do ouro.
Quanto mais velho preferir, mais deverá ser retirado da folha, principalmente nas saliências.
Passe goma laca purificada - para impermeabilizar e espere secar.
Pintar rosto e mãos com tinta óleo cor da pele. Também impermeabilize com goma laca purificada.
Passe betume diluído, mais para o claro, e retire.
Deve ficar aparecendo todas as cores das vestimentas. Mas envelhecidas.




Parte do meu 1º atelier - há muitos anos.


Textos: clique abaixo

Barroco / Aleijadinho
O Barroco e a Igreja Católica

Mais sobre arte sacra barroca e técnicas:  no índice da coluna ao lado.