23 de julho de 2014

POR QUE UMA OBRA É BELA - Érico Santos

Mulheres e Flores - Érico Santos


 Posto aqui, na íntegra, um belo texto de Érico Santos, consagrado artista plástico,      um dos expoentes do mercado de arte no Rio Grande do Sul. Texto retirado de um de seus livros 'Arte: Emoção e Diálogo' - ed Uniprom - pag 13.  
'Erico debate neste livro questões atuais da arte, tecendo considerações sobre a evolução do gosto, dos estilos e principalmente dos suportes artísticos que tanto desconcertam o público.'


POR QUE UMA OBRA É BELA 

Toulouse-Lautrec dizia que não era a Gioconda que as pessoas iam admirar no Louvre, mas sua mística, seu autor, sua história, seu valor.
Tais influências existem. Basta o fato de que quando um artista é consagrado sua obra fica em segundo plano ou até inexistente na consideração de quem a adquire: eu tenho um Matisse... Fulano comprou um Degas... um Van Gogh foi arrematado por A estas alturas já não interessa mais a fruição intrínseca da obra, e sim as vantagens advindas de valores alheios a ela.
Uma obra de arte pode exercer nas pessoas diversos interesses. Alguns procuram incansavelmente a posse de um quadro sem sentir ou entender absolutamente nada sobre o mesmo. Basta ver o frisson que uma determinada pintura causa no mercado entre colecionadores, investidores, marchands, mídia, etc. Mais tarde se verifica que era falsa. Não me refiro às falsificações das obras de Vermeer, por exemplo, passadas pelo crivo dos maiores peritos, orgulhosamente ostentadas até em museus e somente descobertas graças à confissão do falsificador que ansiava pelo reconhecimento. Falo das falsificações grosseiras que qualquer conhecedor de pintura tem condições de constatar. Aqui, garranchos grotescos com a alcunha falsa de Di Cavalcanti, Portinari e outros mestres era disputado freneticamente em leilões e galerias. Como vê a pintura alguém que adquire um quadro destes?
As diferentes maneiras com que as pessoas apreciam as obras de arte muitas vezes estão diretamente relacionadas com suas convicções íntimas, suas necessidades de fruição, de vaidade, de pecúnia ou apenas porque tem uma pressuposição a respeito de uma determinada escola, ou de incontáveis formas de manifestação artística. É o belo da obra, transitando por fora dela mesma, dentro de cada cabeça que não sabe ver o seu belo real.
Alguns só querem a vanguarda. Existem os que só têm olhos para o cubismo. Outros só pensam nos impressionistas. Há os que só se interessam pelo resultado financeiro que lhes dará a obra, e muitos querem qualquer coisa, desde que seu decorador recomende, o que seja da cor do seu sofá.
Creio que para sentir a beleza das obras de arte é preciso neutralizar quaisquer influências exteriores, conhecer suas diversas manifestações e vê-las conforme o contexto em que se enquadram. Um ready-made duchampiano pode ser arte tanto quando um nenúfar de Monet. Entretanto, seus contextos são tão colidentes que um está para o outro como a música está para o teatro. Quem vai a um museu observar uma roda velha de bicicleta está movido por uma necessidade diversa de quem vai a uma galeria comercial. No primeiro caso, uma mentalização em cima de uma teoria. No segundo, prazer, sentimento... alma. Em cada caso há o belo que cada um procura. Basta saber separar os contextos.
- Cenas Urbanas -